Em pleno domingo ensolarado, um grupo de pessoas se reúne para fazer o bem
O dia sete de março, domingo, era improvável para quase todo tipo de trabalho, mas para aquele, em especial, nenhum outro dia seria mais adequado. Era o tipo de trabalho em que todos os que dele participavam precisariam estar de folga. A ocasião teve como deixa o dia nacional do voluntariado, mas era, sem qualquer dúvida, um pouco mais que trabalho voluntário comum. O bairro era um dos mais temidos de Natal, Felipe Camarão, e, mesmo com tamanha má fama, acolheu agradecido o dia que lhe foi reservado.
Médicos, professores, universitários, bancários, instrutores e demais pessoas com o intuito de dar um dia melhor à comunidade local reuniram-se no prédio da Fundação Bradesco, organização não-governamental pertencente ao banco privado de mesmo nome, onde se deu o grande encontro. Os alunos da instituição, em sua quase totalidade moradores de Felipe Camarão, também foram convocados a ajudar e faziam isso com não menos orgulho que os ex-alunos, pais e professores e todos aqueles engajados na causa. O líder comunitário, João Maria, acolhia e ajudava a todos os membros da comunidade e visitantes e não hesitava em dizer que “aqui, político não tem poder; aqui, quem manda somos nós; aqui, nós somos uma família onde as leis falsas e inoperantes não prevalecem.” João Maria enfatizou o quanto o bairro era esquecido pelas forças políticas locais, mas que o povo, unido e com a ajuda da educação disponibilizada pela Fundação Bradesco, conseguia modificar a situação a cada dia, fazendo de Felipe Camarão um bairro melhor para a sua comunidade. Não deixou de mencionar, orgulhoso, o presente que o bairro recebera ao ser escolhido para a instalação da Fundação Bradesco. A escola é conhecida nacionalmente por seu apoio às comunidades menos favorecidas e por sua estrutura, capaz de causar inveja a qualquer instituição de ensino privado.
As opções de serviços oferecidos no dia de voluntariado eram diversas e iam desde o campo da saúde e cidadania até o cultural e sustentável. Professores e estudantes da Universidade Potiguar e outros profissionais mediam pressão arterial, detectavam a presença do vírus HIV através de exames de sangue e palestravam sobre como não adquiri-lo, além do incentivo àqueles que estavam na faixa etária adequada para a doação de medula óssea. Representantes do serviço público também estavam presentes com guichês de consulta e cadastramento ao programa Bolsa Família e dando a oportunidade àqueles que não tinham de fazerem o RG, CPF, atualização da carteira de habilitação, entre outros documentos. As oficinas existiam para todos os gostos e faixas etárias, desde a de pipa até as de capoeira, futebol e dança de rua. Porém, a mais procurada era a que integrava as crianças e os jovens à rede mundial, ensinando-os a usar a internet, mundo ainda desconhecido para a grande parte deles. Para os menores, havia as salas de contação de histórias e reciclagem, de onde eles saíam felizes com seus porta-canetas, telefones sem fio e outros vários objetos feitos a partir de garrafas e papéis. O apoio à sustentabilidade também estava presente através da distribuição de mudas e de apresentações destinadas ao público infantil, mas que atraía a todos com seus personagens caricaturais e divertidos.
Um aspecto que atraiu muitos olhares foi a presença de um grupo cultural comunitário. A Conexão Felipe Camarão fez questão de montar seu stand para expor tudo o que produziam: blusas artesanais, instrumentos de capoeira, roupas e artefatos de Carnaval de cores chamativas e arte admirável decoravam o corredor de entrada da escola. A grande maioria dos objetos era produzida por mães de alunos e muitos filhos orgulhosos faziam questão de chamar a atenção para o espaço da Conexão através de demonstrações musicais com os instrumentos de capoeira.
A empolgação era constante não só da comunidade ajudada, como também dos voluntários. Não havia reclamações e as polícias civil e militar lá presentes ficavam à vontade para aproveitar também a ocasião sem a preocupação com vandalismos inesperados. Até os “vereadores”, como eram chamados – ironicamente – os assaltantes, respeitavam o trabalho realizado, não causando problemas durante todo o dia.
Os murmuros de críticas apenas foram escutados com a presença da governadora, Vilma Farias, e do vice-governador, Iberê de Souza. A mídia por instantes esquecia o que deveria cobrir e corria extasiada atrás das autoridades, que sorriam a todos de forma simpática e elogiavam orgulhosamente o projeto e a instituição de ensino. O que resta saber é se a admiração será a mesma quando forem distribuir, em seus escritórios, o capital estatal, ou se o dia do voluntariado da Fundação Bradesco lhes será apenas mais um exemplo perdido.
Março de 2010
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