Por trás das obras expostas, trabalha o professor Mário Sérgio, o artista que (quase) ninguém vê.
Não foi preciso muito para que aquele quadro chamasse a minha atenção. De longe, o prédio retratado me pareceu familiar. Minha amiga me puxou até ele e admirei a construção antiga cor de rosa. Havia uma pracinha na frente, uma árvore enorme, e até o poste com luzes lá no alto que, à noite, iluminavam os fieis que saiam da catedral de Sant’Ana de Caicó. A catedral ficava em frente ao prédio que, eu tinha certeza, estava perfeitamente desenhado à minha frente. Me senti em casa. Então olhei por trás dos quadros - eram, no mínimo, uns oito expostos – e a primeira coisa que notei foi um desenho sendo rabiscado num papel. Era tão simples quanto perfeito em suas formas. Quase pude sentir o vapor quente do café saindo por aquela xícara. Então, olhei para o senhor esguio de cabelos grisalhos que, concentrado, desenhava, apenas para passar o tempo, aquele pedaço de realidade feito de papel.
- Com licença, o senhor é o pintor? – perguntei, curiosa por conhecê-lo.
Ele respondeu que sim, era o pintor, mas não era “o senhor”, e veio até nós. Então emendei outra pergunta, a que me inquietava desde que avistei a pintura.
- Essa aqui é a Casa de Cultura de Caicó, não é? – indaguei novamente, com os ouvidos prontos para receber a resposta que eu mesma já havia formulado.
Não era. Contrariando minha memória, o desenho retratava a antiga prefeitura da cidade de Natal. Ele explicou que nascera e vivera sempre naquela cidade, então não tinha como pintar mais nada, além do que via ali.
Em seguida, perguntei-lhe o nome: Mário Sérgio convidou-nos, então, eu e minha amiga, a sentar um pouco com ele. Não recusei. Sempre quis conhecer um artista de verdade. Elogiei o desenho da xícara de café que ele, há pouco, retocara os últimos traços e daí iniciou-se a nossa conversa de quase uma hora.
Perguntou-me de onde era, devido ao sotaque que me denunciava. Expliquei-lhe que era de dois estados: Ceará e Rio Grande do Norte. Ele apenas respondeu: “Bem, você é cidadã do mundo. Quem disse isso primeiro foi Chaplin. Ele era inglês, e não aceitou tirar o visto americano porque disse que era cidadão do mundo. Então, expulsaram ele dos Estados Unidos. Mas depois chamaram de volta para receber o Oscar. Engraçado, não é?”
Perguntei-lhe se qualquer um poderia fazer aquilo, ou se era necessário um dom para desenhar com tanta perfeição. “Apenas um por cento é dom. Todo o resto é prática e esforço. E quem disse isso foi Thomas Edison”. Então me pediu que ficasse parada durante cinco minutos para que desenhasse meu rosto. Duvidei que ele pudesse fazer aquilo em cinco minutos, mas não podia - e nem queria – recusar a oferta. Ajeitei-me em uma posição confortável e fiquei parada – mas não calada.
Era o primeiro dia de exposição naquele shopping. Um amigo o havia convidado para expor em seu café e ele foi. Não podia pagar pelo espaço da mostra. Poucos paravam sequer para olhar as pinturas. E quando paravam, não notavam que o artista estava bem ali. Para sobreviver e sustentar os dois filhos, ele dá aulas de pintura, já que é licenciado em Educação Artística pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
“O senhor...”, comecei a pergunta, mas logo fui atingida pelo olhar de repreensão de Mário Sérgio, devido ao tratamento formal. “Desculpe, você é casado?” completei, me esforçando para não mudar muito de posição. Ele olhou para o lado e tentou disfarçar. Só então revelou, discretamente, acenando com a cabeça para o rapaz na mesa ao lado: “Esse rapaz com quem acabei de falar é meu atual enteado.” E não falou mais nada até que o rapaz levantou-se e saiu do café. Então, ele explicou: “Eu estou namorando a mãe dele... aliás, namorando não. Eu estou com ela”, concluiu, meio confuso. “Enrolado?”, perguntei. “É isso aí”, ele riu.
Aos seus 51 anos, Mário Sérgio pinta desde sempre. Desde que tirava notas baixas em Matemática e fugia das aulas de Educação Física. “Não sabia de nada, mas sabia desenhar”. Então foi fazer o que sabia. Começou a desenhar profissionalmente aos 21 anos e nunca mais parou. Se alguém perguntar o que faz da vida, ele responderá, inevitavelmente: “Eu pinto. E ensino a pintar”.
Quando terminou meu desenho – em cinco minutos, como prometido – não pude deixar de reparar nos olhos. Era a parte mais forte. Retratavam a minha expressão e, até, os meus sentimentos. Fiquei admirada com a perfeição dos detalhes, das sombras, traços e até com os pequenos detalhes dos óculos que eu usava.
Não resisti e fiz mais uma pergunta: “De onde vem a inspiração para o seu trabalho?” Ele nem hesitou. “O que a gente faz vem de dentro. Não vem de outro lugar.” Foi suficiente para que eu entendesse.
Então ele olhou para minha amiga, que apenas observava a conversa e o desenho, e convidou: “Sua vez, agora?”. A princípio, ela recusou. Preferia observar a ser observada. Mas cedeu, por fim. Aproveitei para olhar como ele desenhava, curiosa pelas técnicas, embora não entendesse nenhuma.
Os olhos foram praticamente os primeiros rabiscos que ele fez. Rabiscos sim, porque as formas eram o resultado do conjunto dos traços. Em nenhum momento Mário pediu que minha amiga ficasse completamente parada, a não ser quando rabiscou os olhos. “Fica paradinha que agora são os olhos, certo?”
Em determinado momento, um traço saiu errado. Ele pegou a borracha, que não usara até então: “A arte ensina uma coisa que serve para a vida: não tenha medo de errar”, comentou, enquanto consertava um detalhe no rosto de papel e grafite da minha amiga.
Junho de 2011
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