domingo, 16 de outubro de 2011

Allegría, Allegría!

Tinha 14 anos, e a necessidade de evoluir. De aprender. Mas eram tantos os caminhos, não conseguia escolher o mais adequado. Sabia que existiam, mas não conseguia achá-los. Por esse motivo, tamanha foi a minha alegria quando fui selecionada a participar do Clube da Cultura, um grupo restrito de alunos do Ensino Médio que se reunia uma vez por semana em o que seria para mim uma espécie de ritual destinado ao culto à cultura.
Cultura. Era uma palavra bonita. Tão misteriosa quanto me pareciam aqueles encontros. Nada sabia sobre ela e tinha a esperança de aprender.
Às 19h da noite, eu já esperava há alguns minutos a chegada do mestre. Estava nervosa e ansiosa. Seria como uma cerimônia de iniciação. Ele atrasou. Fiquei chateada. Mas ao vê-lo entrar pelo pesado portão de ferro da escola, esqueci a inquietação e fui esperá-lo à porta da sala aonde aconteceria a reunião.
Quando a porta foi aberta, fui uma das primeiras a entrar. Tratei de sentar na primeira fileira, coluna do meio, a frente de tudo, determinada a beber cada gota de conhecimento que pudesse sorver.
Sem ter ideia do que viria a seguir, sou surpreendida pela voz forte do mestre, perguntando algo cuja resposta parecia óbvia para todo o restante das pessoas que estavam ali:
- O que nos faz seres?
Os que conversavam, calaram-se. Então, como um grupo muito bem treinado mas que, acima de tudo, exalava respeito pelo homem a frente da turma, levantaram-se e responderam, em tom tão firme quanto fora a pergunta:
- A ciência.
- O que nos faz homens?
- A arte, a cultura e o saber.
- Boa noite, crianças.
Naquele momento, eu guardei mentalmente aquelas cinco frases e soube que jamais as esqueceria, mesmo que permanecesse por anos sem pronunciá-las.
O que veio a seguir foi uma prévia de todas as descobertas que eu faria durante cada quarta-feira dos próximos dois anos. O mestre falou com a normalidade de quem já falara aquilo outras tantas vezes e o interesse de quem queria que aquilo ficasse gravado em cada um dos participantes: "Esse é o tema dos nossos encontros". E no enorme fundo branco a minha frente comecei a distinguir a apresentação da música Allegría do espetáculo homônimo do Circo de Soleil.
Não precisei conhecer italiano, espanhol ou inglês para saber que todas aquelas palavras me faziam feliz. Allegría não seria minha música favorita, mas seria aquela que me levaria novamente a momentos de felicidade, me faria ver além da realidade e não me refiro somente à ficção, mas à realidade que ninguém vê.
E me faria enxergar um raio de vida. Me faria achar normal um louco a gritar. Me faria sentir a raiva de amar. Me faria ser capaz de explodir e ver uma faísca de vida brilhando. Me daria um feliz e mágico sentimento. Felicidad. Allegría!


Que sejam bem vindos ao mundo que existe por trás desses olhos míopes...  Allegría, Allegría!


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