Eu lembro a primeira vez que fui a uma Feira de Ciências. Tinha os meus onze anos e havia acabado de chegar a uma cidade nova. Nunca ouvira falar de “feiras de ciências” e apresentar um trabalho sobre as salinas do Rio Grande do Norte – um estado bastante desconhecido para mim até então - junto a colegas de classes quase totalmente desconhecidos era motivo suficiente para sentir-me, no mínimo amedrontada.
Não me lembro muito daquele dia. Mas lembro que falava com intimidade e segurança sobre Macau, Mossoró e Ceará-Mirim, mas se fosse indagada de qualquer informação sobre as cidades que não estivessem no meu script, eu definitivamente me daria mal. Lembro também que dois colegas de classe apresentavam um trabalho muito melhor que o meu ao lado. Era algo relacionado a petróleo. Eles haviam montado uma maquete e simulado uma área de extração para melhor exemplificar aos ouvintes. Na maquete, uma espécie de turbina girava e eu não fazia ideia de como dois garotos de onze anos haviam conseguido montar aquilo. “Nerds”, murmurei, despreocupada. Enquanto eu ainda pudesse tirar as melhores notas em Português, estava me lixando para Ciências.
Então, naquela tarde de sexta-feira, 21 de outubro de 2011, quase oito anos após a minha primeira Feira de Ciências, tamanha foi a minha empolgação quando recebi um convite da mãe de um dos meus colegas nerds do Ensino Fundamental. O filho, Pedro, havia montado um robô inteligente com alguns colegas do curso de Engenharia Elétrica e estavam expondo naquela tarde durante a Semana de Ciências, Tecnologia e Cultura da UFRN. Ela queria que fôssemos, eu e minha mãe, ver o robô que tanto havia tirado o sono do pobre filho no último mês.
Fiquei tão admirada ao ver a criação do meu amigo quanto quando ficara diante da microturbina que ele havia inventado quando éramos crianças. Não fazia ideia de que processo ele usara para fazer o robô reconhecer obstáculos, girar ao identificá-los, e ainda calcular o caminho mais curto de um ponto a outro. E não me interessavam aquelas técnicas, na verdade. Contanto que eu ainda pudesse ser uma boa jornalista para, orgulhosamente, contar essa história.
Contudo, a invenção do meu amigo foi apenas a primeira das surpresas que eu teria visitando aquela enorme Feira de Ciências. Após filmar e fotografar o robô, continuei andando por entre os pavilhões. Não demorou muito e vi um tipo estranho. Era um rapaz de cabelos grandes e cacheados. Usava paletó e tinha um tom formal. Mas no rosto, uma máscara me chamara atenção. Aquela máscara em especial jamais passaria despercebida. Era a identidade do personagem central de um dos meus filmes favoritos: “V de Vingança”. A máscara geralmente é atribuída à ideia de justiça e liberdade. Logo imaginei que aquele desconhecido estivesse participando do concurso de cosplay da Feira de Livros e Quadrinhos. Curiosa, fui até ele. Perguntei-lhe se ele estava fantasiado de V, ele disse que não. Então, indaguei-lhe o nome e ele respondeu: “Eu sou Anonymous”. O tipo, que já me parecia estranho, estranhou-me ainda mais. Mas ainda assim, recebi o panfleto convocativo que ele me entregara para uma nova proposta de revolução política e social. Durante aquela tarde, por entre os pavilhões da Feira, encontrei mais dois ou três Anonymous. Orgulhava-me por, ao menos, já saber-lhes os nomes: “Ei, Anonymous! Encontrei outro de você logo ali!”, brincava. Estranhei quando encontrei um V com a fantasia completa, não apenas a máscara. Mas falei com ele da mesma forma, já me sentindo íntima daquele grupo. “Oi, você é Anonymous também?” O rapaz pareceu confuso e explicou-me que era o personagem do filme V de Vinçança. Entendi que, esse sim, era um cosplay. Expliquei-lhe minha confusão e aproveitei para tirar uma foto ao lado do herói das minorias.
Um pouco mais tarde, avistei um stand com cordelistas. Entusiasmada como sou com cultura popular, foi inevitável parar ali. Enquanto olhava os cordéis, um dos autores me chamou: “Você é blogueira?”, indagou, com expressão de quem já tinha certeza da resposta. “Sim, sou”, confirmei, intrigada. Não fazia ideia de como o cordelista Marciano Medeiros sabia daquilo, afinal o meu pobre blog não chegava a cem visualizações em dias normais, considerando que quase nunca tenho tempo para atualizá-lo. Mas aquele foi o ponto de partida para uma boa e rápida conversa, na qual ele me contou um pouco sobre a sua vida e produção. Contou-me que nascera em Santo Antônio, mas morava em Natal há alguns anos. Escreve cordéis há três anos, mas uma de suas produções, que homenageia o escritor potiguar Diógenes da Cunha Lima, com a qual me presenteou, prova que o talento e a experiência vieram rápido para o jovem cordelista de 38 anos.
Quando saí do stand dos cordéis, estava decidida a comer algo, então, no caminho para os trailers de alimentação, fui pega de surpresa por um cosplay perfeito do pirata Jack Sparrow, personagem da série de filmes Piratas do Caribe. O andar, rápido e cambaleante, era inconfundível. A fantasia estava idêntica e até o tom de voz era semelhante. “Jack!”, exclamei, já buscando minha câmera para tirar-lhe uma foto. Ele levantou o chapéu rapidamente e corrigiu-me: “Jack não. Capitão!” Não evitei de rir com aquilo. Desculpei-me pelo inconveniente e antes que tivesse tempo para mais nada, Capitão Jack sumira.
Naquela mesma tarde, vi mais três antigos colegas que costumavam trabalhar ao meu lado nas Feiras de Ciências do Ensino Fundamental. Estavam responsáveis por excelentes trabalhos custeados por renomadas instituições de pesquisas. Vi, ainda, dança africana, oficinas de desenho, retomadas históricas, explicações biológicas e várias representações culturais. Vi, por fim, amigos jornalistas trabalhando das 8h às 23h, em ótimas coberturas daquele evento central que, por uma semana, todos os anos, inunda a sociedade de conhecimento e abrange as fronteiras que nos limitam.
Outubro/2011
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