segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Melodia do Sertão

Para um repórter que necessita de um texto não há algo mais perturbador que uma pauta “cair”. Era exatamente a “queda” de uma pauta, reuniões marcadas, aulas a assistir e provas a estudar que permeavam todos os meus possíveis pensamentos naquela manhã de terça-feira, quando eu voltava de um lugar escondido próximo a Natal, capital do Rio Grande do Norte. Chamava-se “O Bonfim”, o “fim de mundo” mais próximo que eu já havia visitado. Tinha ido a um treinamento para controlar incêndios, onde filmara durante uma hora chamas de fogo crescendo e sendo controladas, com formigas destruindo minhas sapatilhas (e meus pés) e o sol sobre minha cabeça ajudando a torrar todos os neurônios que ainda me restavam. Sob essa circunstância, uma hora é muito tempo.

A questão é que quando finalmente tive alguma perspectiva de sentir o sabor insípido de água, que tanto valorizo em situações como essas, escuto a buzina insistente do carro do meu chefe, logo atrás do veículo em que eu estava.

“Elys, está acontecendo uma aula de sanfona no ‘Rela Buxo’, vamos ali fazer umas imagens”, convocou ele a assessora de comunicação, de quem tenho a estimulante função de ser estagiária.

O que patavinas era “Rela Buxo”, eu não sabia. Mas desejei com todas as forças que lá tivesse um filtro (ou um pote, o que era mais provável pelo nome do local) com água. Nem precisava ser mineral, contanto que fosse úmida o bastante para “molhar a goela”.

Muni-me da câmera filmadora handcam, preparada para fazer o trabalho mais rápido que conseguisse, mas bastou sair do carro para que eu fosse atraída por uma melodia familiar. Cresci escutando “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, em todos os passeios e viagens de carro de duração superior a trinta minutos que fazia com meu pai.

O som vinha de um cômodo de aspecto rústico. Nas minhas medições superficiais, parecia ter, em média, doze metros quadrados. Demorei a encontrar a porta de entrada. E quando a encontrei, não entrei.  O som se tornou mais lúcido quando vi de onde ele saía e percebi que não era tão constante quanto pareceu à distância. Vinha de seis fontes diferentes. Seis adoráveis sanfonas que tocavam em um quase uníssono, com raras variações devido ao contrastante período de experiência dos músicos e aos modelos de seus instrumentos.

O ambiente era cheio de aspectos sertanejos, caracterizando ainda mais a cena. Havia uma velha e enferrujada máquina de costura Singer, esquecida em um dos quatro cantos do cômodo. Havia ainda uma mesa, janelas e prateleiras, tudo de madeira. O chão era de cimento rachado. Algumas cestas de palha, um armário antigo e copos de alumínio pendurados na parede ao lado de uma caixa d’água sem qualquer água dentro completavam a decoração do lugar.

No centro do apertado espaço, sete banquetas de madeira se encaixavam. Uma delas, ocupada por um senhor de tamanho mediano e cabelos brancos, que aparentava os seus setenta anos e manuseava a maior das sanfonas, estava posicionada de frente para as outras. Essas, por suas vezes, eram ocupadas por seis jovens aprendizes. Cinco garotos e apenas uma garota. Dos cinco meninos, dois pareciam ser mais velhos que os demais, entre catorze e quinze anos. As idades dos outros três e da única garota do grupo variavam entre nove e treze anos. Todos os seis vestiam-se de forma simples. Camisetas, bermudas e chinelos de dedos.

Curiosa e indagadora como sou, comecei a imaginar quem eram aquelas pessoas que se refugiavam em uma dependência da Fazenda do Bonfim, longe de todo o alvoroço que a apenas meia hora dali inundava o cotidiano dos moradores da cidade do Natal, para manterem viva a tradição da sanfona, por tanto tempo tida como a voz do sertanejo. Como eram frequentes os tocadores de sanfona! O que era uma festa se uma sanfona não animasse o ambiente? O que eram os casais, se uma cantoria com a ajuda da sanfona não lhes permitia dançar juntinhos? O nordestino costumava alimentar orgulhosamente a cultura do sanfoneiro, personagem cultural de incontestável significado na história da região. Mas pouco temo-lo visto. Não estão mais nos casamentos, nem aniversários, nem mesmo nas festas de forró, preenchidas pelos “safadões”, “aviões”, “solteirões” e milhares de outras denominações que maculam e insistem em substituir o bom baião. Uma vez por ano, nas festas juninas, encontramos um ou dois sanfoneiros perdidos. Tão perdidos são que tamanha foi a minha alegria ao descobrir que novos estavam surgindo!

Contudo, mal concluí meu pensamento e fui pega de surpresa por outra melodia conhecida. Nem conto as vezes que dançara e cantara a rima “Eu quero ovo de codorna para comer, o meu problema ele tem que resolver” nas festas juninas colegiais. A ela, seguiram-se “Tu vens”, “Coração”, e outras cujo título não me recordei na hora.

Podia ter observado o grupo por mais muitos minutos sem que me sentisse entediada, tanta era a minha surpresa, mas o professor concedeu-lhes um intervalo após a demonstração. Não perdi tempo e fui conhecer os personagens do episódio que eu acabara de presenciar.

Wycliffe Gomes era o nome do mestre. “Isso lá é nome de sanfoneiro?”, ele brincava. Mas era. E dos bons. Wycliffe é professor de música do centro cultural Solar Bela Vista, localizado na capital. Ele também auxilia Marcos Lopes, proprietário da Fazenda do Bonfim, com o projeto de construção do Museu do Vaqueiro, o qual pretendem montar no espaço que hoje sedia o tradicional Forró da Lua. “Nesse espaço ninguém chia! Aqui, tem que ser nordestino de verdade! Quem vai para o Sul e volta chiando não tem lugar no nosso forró”, defende, sempre extrovertido, mas acima de tudo, militante pelo resgate da cultura popular nordestina.

As aulas de sanfona fazem parte do projeto de manter ativa essa cultura, através da contribuição das novas gerações. As aulas ainda não chegam a cinco meses de atuação, os encontros acontecem duas vezes por semana, às terças e quintas-feiras, e Wycliffe conta, orgulhoso, que mesmo com o pouco tempo de prática, o pequeno grupo já tem duas apresentações marcadas. “A gente tira eles da ociosidade e mostra a cultura nordestina de verdade a esses garotos. Eles aprendem muito, se divertem, e daqui, um ou dois, com certeza, vão manter viva a sanfona e serão ótimos sanfoneiros”, assegura.

A prosa foi boa e duradoura, tal como a música anterior a ela. Quanto a sede que tanto me incomodava, só lembraria dela novamente quarenta minutos mais tarde, quando da volta ao trabalho. Quem pareciam estar inquietos eram os jovens aprendizes. Depois da manhã, tinham que ir a escola na mesma fazenda. E antes de começarem as aulas de música, não tinham muito mais para fazer por ali. Conversavam entre eles e trocavam olhares significativos com o mestre. Quando afastamo-nos de volta ao nosso caminho para Natal, foram os primeiros a entrarem no aposento e acomodarem-se em seus banquinhos com os instrumentos no colo. Queriam mesmo era tocar sanfona!

Agosto/2011




Galleria (Por Elys Rocha)
(clique nas imagens para visualizar)

 
 
 

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