domingo, 11 de dezembro de 2011

“Fico com raiva de cegos que se fazem de coitados”

Sidney Trindade, cego desde nascença, tem formação tecnológica, é músico, pesquisador, fala três idiomas e trabalha desde os 24 anos

            Demorei a perceber que Sidney era completamente cego quando em ocasião de nosso primeiro contato. Eu, uma voluntária iniciante em um projeto de ledores para cegos. Ele, um dos beneficiados e também colaborador veterano do grupo. As crônicas que narrava sobre episódios da sua condição de deficiente visual contrastavam com sua segurança, senso de direção, facilidade de deslocamento e bom humor. Ao menos a meu ver, até então, ignorante sobre o tema.

            “Um dia um homem me ofereceu ajuda no IFRN. E eu nunca nego ajuda. Mas o rapaz segurou meu braço e foi me puxando, então eu disse: ‘Amigo, vamos fazer assim, eu seguro no seu ombro, vou sentindo seus passos e você vai me guiando, certo?’ Assim fomos andando, subindo alto, descendo alto, calçada, rampa, virando para um lado e outro. Quando chegamos ao destino, o homem falou para mim, em tom de surpresa: ‘Mas você é bem adestradinho, né?’ Dentro da ignorância dele, ele estava me fazendo um elogio, então eu ri e consenti. ‘Sim, amigo, eu sou sim adestrado!”, contava um Sidney descontraído, que consegue fazer piada mesmo das situações que pareciam adversas.

            “E o engraçado é quando acham que cego é surdo”, continuava. “Certo dia, fui comprar alguma coisa em uma loja e o atendente, quando percebeu que eu era cego, falou comigo quase gritando. Eu respondi mais alto ainda: ‘Fale um pouco mais alto, não estou entendendo não!” Sidney não era o tipo arrogante. Mas também passava longe do título de paciente. É um “tirador de onda”, como se define, e não perde o fio da piada, que, em merecidas vezes, pode aproximar-se ao sarcasmo.

            Desde criança, brincou e driblou as situações adversas e intimidadoras. A primeira delas aconteceu no dia de seu nascimento. A mãe tinha apenas oito meses de gestação quando enfrentou um complicado trabalho de parto. A falta de oxigenação fez com que Sidney nascesse “roxo” e deixou como sequela a atrofia do seu nervo óptico, tornando-o cego.  Apenas 45 dias mais tarde a mãe percebeu que havia algo de errado com a visão do filho recém-nascido. Após o desespero inicial, levou-o ao médico, que constatou que Sidney, de fato, era cego. A mãe foi recomendada a criar Sidney da mesma forma que criava seus dois irmãos mais velhos, já que ele era praticamente uma pessoa normal. Ela levou ao pé da letra. Sidney cresceu jogando bola, andando de skate, patins, bicicleta e pegando onda em Ponta Negra. Aos 4 anos, Sidney ganhou uma bicicleta e andava tranquilamente pela Av. Capitão Mor Gouveia, que, na época, ainda não havia sido duplicada. Situava-se por sons e movimentos, além de já conhecer bem a região, onde sua vó morava. Quando precisava ir a lugares mais distantes, permitia que a irmã fosse à frente e, pelo barulho da bicicleta dela, ele reconhecia obstáculos e curvas. Nunca esbarrou em nada.
           
A mãe, Dona Miriam, era professora. Quando Sidney tinha por volta dos seis anos, ela identificou a necessidade de alfabetizá-lo.  Abriu mão da vida profissional e começou a desenvolver os mais variados métodos para isso: colava linhas em papel para que ele sentisse o formato das letras, comprava letras de plástico, matrizes de letras, sempre procurando novos materiais. Na época, Sidney ainda enxergava pouco, entre 3 e 5% (hoje ele só consegue enxergar a luz). A mãe colocava-o em um quarto escuro e com um pincel atômico preto e uma cartolina branca ela o fazia enxergar os formatos das letras. Assim ele obteve conhecimento e acostumou-se com os símbolos do alfabeto latino. Na época, ainda não conhecia o braile, alfabeto especial e adaptado para cegos.

            Após alfabetizá-lo, Miriam decidiu que deveria tentar matriculá-lo em uma escola normal. Sidney foi aceito no Instituto de Alfabetização e Arte (hoje, CEI), mas o despreparo da equipe da instituição para recebê-lo fez com que não ficasse muito tempo ali. “Os professores não deixavam eu fazer o que eu fazia em casa”, conta. “Que era o quê?”, pergunto. “Tudo!”, ele responde como se fosse óbvio. “Eu ia para a aula e pediam para que eu sentasse numa cadeira. Quando eu levantava, corriam dois, três, perguntando o que eu queria. Eu não brincava com as outras crianças. E criança gosta é de brincar, não é?” Quando a mãe perguntou se ele estava gostando do colégio, Sidney foi sincero. Não gostava pois não conseguia sentir-se normal em meio a todo aquele cuidado excessivo. Pela experiência que teve, hoje ele defende que sejam mantidas as escolas específicas para deficientes visuais.

            Sidney continuou sendo educado pela mãe, em casa, até que, em abril de 1986, quando tinha 10 anos, surgiu a ideia de levá-lo para o Instituto dos Cegos. Como a mãe já o havia alfabetizado, Sidney encontrou um único empasse para nivelar-se com os alunos de primeiro ano: não sabia o braile. Mas isso não o impediu de acompanhar a turma. Paralelo ao conteúdo programado para o primeiro ano, a professora da escola começou a ensinar-lhe o braile em várias lições. Acostumado com os métodos de ensino da mãe, Sidney levou o alfabeto para casa e não precisou de mais de três dias para aprendê-lo por completo, inclusive os números e demais caracteres. Permaneceu no Instituto dos Cegos por 4 anos, até o final do Ensino Fundamental I.

Sidney passou um ano sem estudar e, aos 16 anos, entrou no supletivo a fim de concluir o Ensino Fundamental II. Não teve paciência para todas as provas do supletivo e preferiu fazer os “provões”: uma prova de cada disciplina e se passasse estaria aprovado no nível básico. Toda tarde, a mãe sentava e lia um pouco do conteúdo para ele e, em um ano, após prestar e passar em todas as provas, concluiu o 1º grau. Paralelo a isso, Sidney tinha aulas de música do conservatório Frederico Chopin, onde estudava teclado popular.

 Após passar mais dois anos sem estudar, resolveu fazer o Ensino Médio no Colégio Estadual Padre Miguelino. Quando concluiu o nível médio, devido à escassez de material e mão de obra qualificada na época, Sidney não quis mais estudar. Já músico profissional, começou a tocar durante a noite e fazer cursos a fim de qualificar-se. “Como estava sem estudar, se me dissessem que havia um curso de enrolar cordão em prego, eu fazia”, conta.  Alguns dos cursos deram a Sidney habilidade em informática e isso fez com que ele fosse convidado, em 2001, a dar aulas na Associação dos Deficientes Visuais.

“Fiquei lá na Associação até 2003, saí porque todos os deficientes já tinham passado pelas minhas mãos e o povo estava demorando a cegar. Daí não tinha mais aluno”, brinca. Logo em seguida, Sidney recebeu o convite de acompanhar um músico de Natal, também cego, o cantor e compositor José Barros. Aproveitou para fazer também um curso de idiomas de Inglês no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN). No começo de 2006, resolveu prestar vestibular na Universidade Federal do Rio Grande do Norte para bacharelado em piano, já que, agora, havia mais facilidades na busca por informações para pessoas cegas. Conseguiu uma bolsa no curso extensivo para vestibular do Colégio e Curso CDF e dedicou-se a estudar. Incentivado pela professora do curso de Inglês, resolveu também prestar vestibular para o curso de Tecnologia em Desenvolvimento e Análise de Sistemas, na época, Tecnologia em Desenvolvimento e Software, no IFRN.

Quando passou no vestibular do IFRN, desistiu de tentar bacharelado em Música. Foi convocado para uma reunião no IFRN, em que professores e funcionários de cargos importantes no curso tentaram convencê-lo de que aquele não seria o melhor curso para um deficiente visual, por ser muito difícil. Sugeriram a Sidney escolher outro curso dentro de qualquer departamento para que fosse transferido. Ele escolheu permanecer no curso, mesmo com as dificuldades que eram apresentadas. Contou com vários professores aliados no decorrer do curso, que “compraram a ideia” de ter um aluno deficiente visual e, a cada nota boa, Sidney provava conseguir cumprir a responsabilidade que havia assumido. “Quando fechei uma prova de Eletrônica Digital, no dia seguinte, até o porteiro da escola me deu parabéns. Mas também aconteceu de ser reprovado em uma disciplina por dois décimos na média. Ninguém passava a mão na minha cabeça porque eu sou cego”.

Sidney escolheu para Trabalho de Conclusão de Curso desenvolver algo que pudesse ajudar a pessoas que são iguais a ele com dificuldades que ele também enfrenta. Daí surgiu o e-guia, aplicativo para celular que ele aperfeiçoa até hoje. Trata-se de um sistema digital para identificar ônibus. A função é avisar, através de um aplicativo no celular, quanto tempo falta para que determinado ônibus chegue a uma parada específica. O projeto auxiliaria não só pessoas cegas como todos aqueles que dependem do sistema de transporte coletivo. O primeiro protótipo do e-guia foi apresentado no Fórum Mundial de Educação Tecnológica no final de 2009, em Brasília.

Após o término da graduação, Sidney entrou no Mestrado de Engenharia de Computação na UFRN como aluno especial e começou a inscrever-se em concursos. Logo passou no concurso do Ministério Público da União, e desistiu do Mestrado, por receio de ser chamado para assumir o cargo e não conseguir concluir o curso. Enquanto o chamado não vinha, foi contratado pela Superintendência de Informática da UFRN para tornar o sistema SIGAA acessível para deficientes visuais. Hoje em dia trabalha para a Funpec no Laboratório de Acessibilidade da UFRN, cuidando da parte tecnológica que necessita de mão-de-obra específica, como a impressora braile.

Embora nunca tenha tido problemas com empregos, Sidney afirma que o mercado de trabalho para deficientes visuais, em geral, é muito difícil. “Se você não fizer um concurso, não tem chance. A imagem que a sociedade tem de um deficiente visual é aquele coitadinho que fica em frente às Americanas pedindo esmola. E alguns querem mesmo ser coitados. Tenho raiva desse tipo. Cego não é coitado.”, explica.

Aos 35 anos, além do trabalho e das pesquisas para o e-guia, Sidney faz curso de Espanhol no IFRN, toca na orquestra de violão da UFRN, joga golbol (espécie de futebol para deficientes visuais) e ainda tem uma namorada há 12 anos, Isabel. “Vocês homens são todos iguais mesmo. Sempre enrolando as mulheres. Já está na hora de casar, não?”, pergunto, em tom de brincadeira, ao fim da entrevista. “É tudo um ciclo”, ele responde. “Depois do casamento, vem o divórcio. E eu ainda quero ficar com ela algum tempo, então não caso”. Quase me convenceu.

Ofereci a Sidney uma carona para casa. Eu havia ganhado um carro há dois dias e ainda fazia confusão com os caminhos. Ele foi me guiando pela UFRN até a sua casa, que não ficava tão longe, no bairro chamado Potilândia. Avisava exatamente onde dobrar e sabia mais detalhes sobre o caminho que eu fazia quase todos os dias que eu mesma. Durante o percurso, me perdi. Sidney, pacientemente, explicou-me como voltar para o caminho certo. Com dois olhos funcionando razoavelmente bem e duas lentes que completavam a potência deles, senti-me mais deficiente que Sidney, “cego” desde sempre.

Dezembro/2011

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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

“Jack não. Capitão!”

Eu lembro a primeira vez que fui a uma Feira de Ciências. Tinha os meus onze anos e havia acabado de chegar a uma cidade nova. Nunca ouvira falar de “feiras de ciências” e apresentar um trabalho sobre as salinas do Rio Grande do Norte – um estado bastante desconhecido para mim até então - junto a colegas de classes quase totalmente desconhecidos era motivo suficiente para sentir-me, no mínimo amedrontada.

            Não me lembro muito daquele dia. Mas lembro que falava com intimidade e segurança  sobre Macau, Mossoró e Ceará-Mirim, mas se fosse indagada de qualquer informação sobre as cidades que não estivessem no meu script, eu definitivamente me daria mal. Lembro também que dois colegas de classe apresentavam um trabalho muito melhor que o meu ao lado. Era algo relacionado a petróleo. Eles haviam montado uma maquete e simulado uma área de extração para melhor exemplificar aos ouvintes. Na maquete, uma espécie de turbina girava e eu não fazia ideia de como dois garotos de onze anos haviam conseguido montar aquilo. “Nerds”, murmurei, despreocupada. Enquanto eu ainda pudesse tirar as melhores notas em Português, estava me lixando para Ciências.

            Então, naquela tarde de sexta-feira, 21 de outubro de 2011, quase oito anos após a minha primeira Feira de Ciências, tamanha foi a minha empolgação quando recebi um convite da mãe de um dos meus colegas nerds do Ensino Fundamental. O filho, Pedro, havia montado um robô inteligente com alguns colegas do curso de Engenharia Elétrica e estavam expondo naquela tarde durante a Semana de Ciências, Tecnologia e Cultura da UFRN. Ela queria que fôssemos, eu e minha mãe, ver o robô que tanto havia tirado o sono do pobre filho no último mês.

            Fiquei tão admirada ao ver a criação do meu amigo quanto quando ficara diante da microturbina que ele havia inventado quando éramos crianças. Não fazia ideia de que processo ele usara para fazer o robô reconhecer obstáculos, girar ao identificá-los, e ainda calcular o caminho mais curto de um ponto a outro. E não me interessavam aquelas técnicas, na verdade. Contanto que eu ainda pudesse ser uma boa jornalista para, orgulhosamente, contar essa história.

            Contudo, a invenção do meu amigo foi apenas a primeira das surpresas que eu teria visitando aquela enorme Feira de Ciências. Após filmar e fotografar o robô, continuei andando por entre os pavilhões. Não demorou muito e vi um tipo estranho. Era um rapaz de cabelos grandes e cacheados. Usava paletó e tinha um tom formal. Mas no rosto, uma máscara me chamara atenção. Aquela máscara em especial jamais passaria despercebida. Era a identidade do personagem central de um dos meus filmes favoritos: “V de Vingança”. A máscara geralmente é atribuída à ideia de justiça e liberdade. Logo imaginei que aquele desconhecido estivesse participando do concurso de cosplay da Feira de Livros e Quadrinhos. Curiosa, fui até ele. Perguntei-lhe se ele estava fantasiado de V, ele disse que não. Então, indaguei-lhe o nome e ele respondeu: “Eu sou Anonymous”. O tipo, que já me parecia estranho, estranhou-me ainda mais. Mas ainda assim, recebi o panfleto convocativo que ele me entregara para uma nova proposta de revolução política e social. Durante aquela tarde, por entre os pavilhões da Feira, encontrei mais dois ou três Anonymous. Orgulhava-me por, ao menos, já saber-lhes os nomes: “Ei, Anonymous! Encontrei outro de você logo ali!”, brincava. Estranhei quando encontrei um V com a fantasia completa, não apenas a máscara. Mas falei com ele da mesma forma, já me sentindo íntima daquele grupo. “Oi, você é Anonymous também?” O rapaz pareceu confuso e explicou-me que era o personagem do filme V de Vinçança. Entendi que, esse sim, era um cosplay. Expliquei-lhe minha confusão e aproveitei para tirar uma foto ao lado do herói das minorias.

            Um pouco mais tarde, avistei um stand com cordelistas. Entusiasmada como sou com cultura popular, foi inevitável parar ali. Enquanto olhava os cordéis, um dos autores me chamou: “Você é blogueira?”, indagou, com expressão de quem já tinha certeza da resposta. “Sim, sou”, confirmei, intrigada. Não fazia ideia de como o cordelista Marciano Medeiros sabia daquilo, afinal o meu pobre blog não chegava a cem visualizações em dias normais, considerando que quase nunca tenho tempo para atualizá-lo. Mas aquele foi o ponto de partida para uma boa e rápida conversa, na qual ele me contou um pouco sobre a sua vida e produção. Contou-me que nascera em Santo Antônio, mas morava em Natal há alguns anos. Escreve cordéis há três anos, mas uma de suas produções, que homenageia o escritor potiguar Diógenes da Cunha Lima, com a qual me presenteou, prova que o talento e a experiência vieram rápido para o jovem cordelista de 38 anos.

            Quando saí do stand dos cordéis, estava decidida a comer algo, então, no caminho para os trailers de alimentação, fui pega de surpresa por um cosplay perfeito do pirata Jack Sparrow, personagem da série de filmes Piratas do Caribe. O andar, rápido e cambaleante, era inconfundível. A fantasia estava idêntica e até o tom de voz era semelhante. “Jack!”, exclamei, já buscando minha câmera para tirar-lhe uma foto. Ele levantou o chapéu rapidamente e corrigiu-me: “Jack não. Capitão!” Não evitei de rir com aquilo. Desculpei-me pelo inconveniente e antes que tivesse tempo para mais nada, Capitão Jack sumira.

            
Naquela mesma tarde, vi mais três antigos colegas que costumavam trabalhar ao meu lado nas Feiras de Ciências do Ensino Fundamental. Estavam responsáveis por excelentes trabalhos custeados por renomadas instituições de pesquisas. Vi, ainda, dança africana, oficinas de desenho, retomadas históricas, explicações biológicas e várias representações culturais. Vi, por fim, amigos jornalistas trabalhando das 8h às 23h, em ótimas coberturas daquele evento central que, por uma semana, todos os anos, inunda a sociedade de conhecimento e abrange as fronteiras que nos limitam.

Outubro/2011

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Melodia do Sertão

Para um repórter que necessita de um texto não há algo mais perturbador que uma pauta “cair”. Era exatamente a “queda” de uma pauta, reuniões marcadas, aulas a assistir e provas a estudar que permeavam todos os meus possíveis pensamentos naquela manhã de terça-feira, quando eu voltava de um lugar escondido próximo a Natal, capital do Rio Grande do Norte. Chamava-se “O Bonfim”, o “fim de mundo” mais próximo que eu já havia visitado. Tinha ido a um treinamento para controlar incêndios, onde filmara durante uma hora chamas de fogo crescendo e sendo controladas, com formigas destruindo minhas sapatilhas (e meus pés) e o sol sobre minha cabeça ajudando a torrar todos os neurônios que ainda me restavam. Sob essa circunstância, uma hora é muito tempo.

A questão é que quando finalmente tive alguma perspectiva de sentir o sabor insípido de água, que tanto valorizo em situações como essas, escuto a buzina insistente do carro do meu chefe, logo atrás do veículo em que eu estava.

“Elys, está acontecendo uma aula de sanfona no ‘Rela Buxo’, vamos ali fazer umas imagens”, convocou ele a assessora de comunicação, de quem tenho a estimulante função de ser estagiária.

O que patavinas era “Rela Buxo”, eu não sabia. Mas desejei com todas as forças que lá tivesse um filtro (ou um pote, o que era mais provável pelo nome do local) com água. Nem precisava ser mineral, contanto que fosse úmida o bastante para “molhar a goela”.

Muni-me da câmera filmadora handcam, preparada para fazer o trabalho mais rápido que conseguisse, mas bastou sair do carro para que eu fosse atraída por uma melodia familiar. Cresci escutando “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, em todos os passeios e viagens de carro de duração superior a trinta minutos que fazia com meu pai.

O som vinha de um cômodo de aspecto rústico. Nas minhas medições superficiais, parecia ter, em média, doze metros quadrados. Demorei a encontrar a porta de entrada. E quando a encontrei, não entrei.  O som se tornou mais lúcido quando vi de onde ele saía e percebi que não era tão constante quanto pareceu à distância. Vinha de seis fontes diferentes. Seis adoráveis sanfonas que tocavam em um quase uníssono, com raras variações devido ao contrastante período de experiência dos músicos e aos modelos de seus instrumentos.

O ambiente era cheio de aspectos sertanejos, caracterizando ainda mais a cena. Havia uma velha e enferrujada máquina de costura Singer, esquecida em um dos quatro cantos do cômodo. Havia ainda uma mesa, janelas e prateleiras, tudo de madeira. O chão era de cimento rachado. Algumas cestas de palha, um armário antigo e copos de alumínio pendurados na parede ao lado de uma caixa d’água sem qualquer água dentro completavam a decoração do lugar.

No centro do apertado espaço, sete banquetas de madeira se encaixavam. Uma delas, ocupada por um senhor de tamanho mediano e cabelos brancos, que aparentava os seus setenta anos e manuseava a maior das sanfonas, estava posicionada de frente para as outras. Essas, por suas vezes, eram ocupadas por seis jovens aprendizes. Cinco garotos e apenas uma garota. Dos cinco meninos, dois pareciam ser mais velhos que os demais, entre catorze e quinze anos. As idades dos outros três e da única garota do grupo variavam entre nove e treze anos. Todos os seis vestiam-se de forma simples. Camisetas, bermudas e chinelos de dedos.

Curiosa e indagadora como sou, comecei a imaginar quem eram aquelas pessoas que se refugiavam em uma dependência da Fazenda do Bonfim, longe de todo o alvoroço que a apenas meia hora dali inundava o cotidiano dos moradores da cidade do Natal, para manterem viva a tradição da sanfona, por tanto tempo tida como a voz do sertanejo. Como eram frequentes os tocadores de sanfona! O que era uma festa se uma sanfona não animasse o ambiente? O que eram os casais, se uma cantoria com a ajuda da sanfona não lhes permitia dançar juntinhos? O nordestino costumava alimentar orgulhosamente a cultura do sanfoneiro, personagem cultural de incontestável significado na história da região. Mas pouco temo-lo visto. Não estão mais nos casamentos, nem aniversários, nem mesmo nas festas de forró, preenchidas pelos “safadões”, “aviões”, “solteirões” e milhares de outras denominações que maculam e insistem em substituir o bom baião. Uma vez por ano, nas festas juninas, encontramos um ou dois sanfoneiros perdidos. Tão perdidos são que tamanha foi a minha alegria ao descobrir que novos estavam surgindo!

Contudo, mal concluí meu pensamento e fui pega de surpresa por outra melodia conhecida. Nem conto as vezes que dançara e cantara a rima “Eu quero ovo de codorna para comer, o meu problema ele tem que resolver” nas festas juninas colegiais. A ela, seguiram-se “Tu vens”, “Coração”, e outras cujo título não me recordei na hora.

Podia ter observado o grupo por mais muitos minutos sem que me sentisse entediada, tanta era a minha surpresa, mas o professor concedeu-lhes um intervalo após a demonstração. Não perdi tempo e fui conhecer os personagens do episódio que eu acabara de presenciar.

Wycliffe Gomes era o nome do mestre. “Isso lá é nome de sanfoneiro?”, ele brincava. Mas era. E dos bons. Wycliffe é professor de música do centro cultural Solar Bela Vista, localizado na capital. Ele também auxilia Marcos Lopes, proprietário da Fazenda do Bonfim, com o projeto de construção do Museu do Vaqueiro, o qual pretendem montar no espaço que hoje sedia o tradicional Forró da Lua. “Nesse espaço ninguém chia! Aqui, tem que ser nordestino de verdade! Quem vai para o Sul e volta chiando não tem lugar no nosso forró”, defende, sempre extrovertido, mas acima de tudo, militante pelo resgate da cultura popular nordestina.

As aulas de sanfona fazem parte do projeto de manter ativa essa cultura, através da contribuição das novas gerações. As aulas ainda não chegam a cinco meses de atuação, os encontros acontecem duas vezes por semana, às terças e quintas-feiras, e Wycliffe conta, orgulhoso, que mesmo com o pouco tempo de prática, o pequeno grupo já tem duas apresentações marcadas. “A gente tira eles da ociosidade e mostra a cultura nordestina de verdade a esses garotos. Eles aprendem muito, se divertem, e daqui, um ou dois, com certeza, vão manter viva a sanfona e serão ótimos sanfoneiros”, assegura.

A prosa foi boa e duradoura, tal como a música anterior a ela. Quanto a sede que tanto me incomodava, só lembraria dela novamente quarenta minutos mais tarde, quando da volta ao trabalho. Quem pareciam estar inquietos eram os jovens aprendizes. Depois da manhã, tinham que ir a escola na mesma fazenda. E antes de começarem as aulas de música, não tinham muito mais para fazer por ali. Conversavam entre eles e trocavam olhares significativos com o mestre. Quando afastamo-nos de volta ao nosso caminho para Natal, foram os primeiros a entrarem no aposento e acomodarem-se em seus banquinhos com os instrumentos no colo. Queriam mesmo era tocar sanfona!

Agosto/2011




Galleria (Por Elys Rocha)
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